sexta-feira, 27 de março de 2015

'Aumakua


Ola meus queridos(as)

Algumas pessoas simplesmente passam pela sua vida, algumas deixam marcas, algumas nem isso, algumas ficam, algumas voltam, algumas são guardadas na caixinha de boas memórias mas todas elas, de um jeito meio misterioso nos deixam algo, nos ensinam algo, nos acrescentam, nos fazem crescer... mesmo aos trancos e barrancos. 

E hoje me pego lembrado a primeira vez que senti o cheiro doce das plumérias inebriantes inundando a calma noite enluarada em Milolii, e eu depois de algumas cervejas tentando decifrar o que você falava no seu dialeto, uma mistura de inglês com havaiano, filipino e sei lá eu mais o que! Enquanto o  oceano espelhava a lua cheia e todos os bilhões de estrelas que habitam o céu desse vilarejo perdido na Big Island.

Você dormindo naquela cabana que gostávamos de passar os finais de semana em Waipio valley, e os últimos raios do sol entrando pela enorme janela de vidro (dava uma sensação que o interior e o exterior se fundiam) iluminando seu corpo adormecido, em paz. Nosso refúgio em Kapoho, aonde o tempo simplesmente parava, enquanto passamos os dias nadando com as tartarugas e todos os peixes das cores mais únicas. Seus pés descalços andando pela neve no topo do Mauna Kea, você correndo próximo DEMAIS da lava do Kilauea que reconstruía a terra e chegava ao mar, suas mãos grossas calejadas de tanto pescar que sempre me acariciavam com tanta gentileza, seu amor e respeito pela terra, aina.... como se você e essa força que emana das ilhas, dos ancestrais, fossem um só; um 'aumakua! Seu 'aumakua sempre foi o he'e (segundo você) , talvez seja por isso que tenho um polvo tatuado no meu braço direito! (he'e significa polvo em havaiano)

Num dos momentos mais difíceis da minha vida, eu tive o privilégio de encontrar você; nem por um segundo você olhou para meus braços roxos e perfurados por tantas agulhas depois de semanas na UTI, nem por um segundo você olhou as feridas ainda abertas, apenas cuidou delas, nem por um segundo você olhou para os "restos" que eu era e sim olhou dentro de mim, e sempre me viu inteira! Nem por um segundo você deixou de me amar, até hoje. Porque isso é você, sua essência, esse enorme amor por tudo e todos, pela terra, pela vida. 

Tive a honra de ser casada com esse ser da natureza, o único que tem uma tartaruga marinha de estimação; ela "Honulane" (o nome da tartaruga) vive no mar em Milolii, mas toda vez que ele a chama ela aparece na praia para receber um carinho, é sério!!!!

P.S: 'Aumakua: Na mitologia havaiana, uma 'aumakua é um deus familiar, muitas vezes, um ancestral divinizado. Os 'aumakua freqüentemente manifestam-se como animais





quarta-feira, 25 de março de 2015

Faxina


Ola meus queridos(as)

O tempo voa mesmo! O Carnaval se foi a Páscoa esta ai e, olha que incrível, estamos todos vivos e felizes. Não aquela felicidade da propaganda de margarina, não aquela felicidade utópica mas simplesmente felizes levando o dia a dia, construindo, um tijolo de cada vez, babando no nosso pequeno I. que cresce a olhos vistos! O Caiçara abraçando suas responsabilidades, trabalhando, ajudando, até aguentando minhas TPM's (que, confesso, estam cada mês pior, esta na lista de prioridades, consulta com minha ginecologista.... estou chegando na menopausa mesmo)!!!!! Outro dia nem eu percebi o quando estava irritada, ele simplesmente disse: tire um tempinho para você, eu levo o I. na escola e depois pego no final do dia, já avisei sua secretária para cancelar suas reuniões hoje (não gostei muito a priori) e aquele Spa aqui perto de casa que você adora esta esperando você, já agendei tudo, bom dia.... E lá foi ele com nosso pequeno embora enquanto eu ainda tomava meu café pasma. Que escolha eu tinha a não ser obedecer e passar o dia inteiro sendo paparicada!!!! 

Uns dias trás foi o contrário, mas confesso que não tive a mesma sensibilidade ou percepção. Ele chegou inquieto, bravo, irritado com "coisas" do trabalho que não faziam o mínimo sentido para mim (porque espernear se o seu ajudante de cozinha chegou atrasado e queimou o pernil que estava no forno?).... Porque fazer um campo de batalha se a rúcula não estava lavada? Quando ele saiu do banho, olhou para mim e disse: estou numa SAD horrível. Conversamos, o abracei e fomos dormir (confesso que minha codependência me fez trancar a porta e esconder a chave.... ridícula eu, ele simplesmente dormiu, acordou e passou)! Esqueci completamente que este final de março/começo de abril é uma época muito complicada para ele, o aniversário da mãe (hoje alias) e daqui uns dias (acho que dia 3 de abril, sou péssima de datas, sua morte).... resumindo, março é um pseudo inferno astral para ele.  Ah, SAD significa síndrome de abstinência demorada, o Caiçara é o clássico, batendo 7/8 meses limpos começa os sintômas; hipersensibilidade, distúrbio do sono (ele estava com uma insônia crônica ultimamente), sensibilidade ao stress.... O legal é que ele mesmo identificou e tomou as redes da situação. Nestes últimos anos o que vinha acontecendo era mais ou menos isso, ele ficava "limpo" esse tempo 7/8/9 meses e recaia, quase como se fosse um ciclo, será que ele quebrou o ciclo? Não sei.

O que sei é que eu não penso mais nisso, ele sabe, eu sei que não tem meio termo. Tenho meus defeitos, minhas imperfeições mas podemos contar um com o outro enquanto formos nós dois (sem a droga), e quanto mais o tempo passa e optamos por ter uma vida como qualquer outra as coisas caminham. Falamos muito pouco sobre drogas, recuperação, ou sei lá eu mais o quê... não porque não sejam importantes, mas não são mais os assuntos que dirigem as nossas vidas. Por favor meus queridos, não me entendam mal, ninguém esta jogando a sujeira para baixo do tapete; simplesmente acho que já fizemos a faxina na casa, agora é só manter ela limpa!


sábado, 7 de fevereiro de 2015

Só love


Ola meus queridos(as)

Não sei se é a conjunção dos astros, meus hormônios, ou simplesmente um pseudo momento zen budista... mas sabe quando tudo é "só love"! Falo assim meio na brincadeira, lembro de uma música brega que fez sucesso em algum verão passado... so love, so love e por ai vai (é o que consigo me lembrar, o refrão). 

Até consegui fazer sala para minha mãe hoje de manhã por meia hora sem inventar nenhuma estória do tipo "preciso ir na feira", ou " salvar o planeta Klingdom"... e sobrevivi, inteira, sem estress.  Levei o I. numa loja de brinquedos educativos que eu gosto muito aqui perto de casa, estava namorando um trem de madeira lindo que queria dar de presente para ele, qual a minha surpresa quando ele escolheu um caminhão que custava um terço do preço do trem e ficou simplesmente FELIZ! Com o que ele queria e não com o que eu queria dar para ele.... Sábado, fomos almoçar feijoada com a super babá, e "só love".... porque simplesmente as coisas acontecem tranquilamente, como um rio que flui, quando deixamos ele seguir seu fluxo. Muito difícil, pois estamos sempre construindo barragens, desvios e esquecemos de deixar que ele siga seu caminho...

Sempre fui muito cética (e ainda sou), porém hoje minha necessidade de controlar não existe mais, que venha o caos, que seja o que Deus quiser, que o rio siga seu curso.... e acredito que tudo tem um propósito, uma razão de ser nesta vida ou em outra que virá (ou não). Quando saímos do caminho, deixamos a vida simplesmente existir, ela floresce, ela cresce, ela se multiplica. Jogue uma semente e deixe a natureza fazer o resto... cultive o bem e ele vem!!!!!

Para vocês queridos(as) que estam sofrendo (como eu já sofri e MUITO), saiam do caminho.... encontrem o SEU caminho e o resto o tempo vai dizer, se vocês escutarem, porque ele fala. 






sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Frankenstein


Ola meus queridos(as)

E se pudessemos escolher o que mais gostamos em cada uma das pessoas que amamos (passado, presente e futuro) e juntássemos num ser ser? A ingenuidade do primeiro namorado, as dedos longos e carinhosos do primeiro marido, a espontaneidade daquele pseudo caso, o amor eterno daquele adolescente, a solidariedade do amigo, os cabelos longos que encantam, o orgasmo cósmico do amante, as costas largas e bronzeadas do rolo de verão, o compromisso sólido do casamento, a aventura dos olhos daquele viajante, a paciência e compreensão do segundo marido, as lágrimas sinceras de quem te amou, a gentileza e o abraço de urso do amor atemporal... Se pudéssemos dissecar as qualidades (e membros) que mais apreciamos e construir um ser como queremos que ele seja, perfeito. Andei pensando nisso.... e cheguei a conclusão.

Construiria um Frankenstein. Seria uma colcha de retalhos, pedaços de tudo que amo MAS que juntos não seriam mais nada, como se você costurasse um vestido, uma calça e um blazer tudo junto. E que depois, como no clássico livro de Mary Shelley, voltaria para te assombrar.... 

É natural, até instintivo comparar as diversas experiências, relacionamentos ou sei lá eu mais o que; porém sabendo que cada uma delas é única e NUNCA encontraremos alguém perfeito, encontraremos sim momentos de perfeição em cada uma delas!

Então sugiro a vocês meus queridos, que não criem seus Frankensteins... 

Favor


Ola meus queridos(as)

Fico no mínimo impressionada em observar como algumas coisas não mudam... Ou será que eu mudei e o resto continua no mesmo lugar? É uma hipótese também. Ontem ficou claro. O Caiçara continua trabalhando num ótimo restaurante aqui na Vila, pois é, literalmente uma quadra de casa (inúmeros bons restaurantes estam aqui na Vila mesmo então não tem como "culpá-lo" né?). Ontem ele perguntou se poderia dormir aqui em casa, sairia depois da meia noite e não conseguiria pegar o metro.... Bom, tudo bem. Chego lá pela uma hora.... Claro que fui dormir bem antes disso.

Acordo do nada, assustada, olho no relógio, quase três da madrugada, nada do Caiçara.... tranco a porta do apartamento (claro que ele não tem a chave), tomo água, observo o I. dormir profundamente por alguns segundos e volto para minha caminha. Quando estou pegando no sono novamente toca a campainha. Não perdi nem meio segundo, desculpe, acabei indo tomar uma cerveja com os amigos do trabalho, estava aqui do lado (até acredito mesmo) MAS e daí? Isso não lhe dá o direito de bater na minha casa as três da manhã, vai dormir no sofá e não enche o saco.... boa noite.

Confesso que acordei de ovo virado; ele justificando, não fiz nada demais, nunca saio com meus amigos, estava aqui do lado e blablabla... Por mim tanto faz quanto tanto fez, mas na minha casa, que você era visita, chegar uma hora dessas é inadmissível! Isso aqui não é a casa da mãe Joana, respeite o MEU espaço! Eu estava fazendo um favor para você.... e mais uma vez você abusa da boa vontade.
Ele passou metade da manhã dizendo que eu estava fazendo uma tempestade num copo d'água, eu simplesmente coloquei ele na geladeira e fui resolver algumas coisas na escolinha do I. (ufa, as aulas voltam segunda feira!). 

Resumindo, na cabeça dele não foi nada de mais, na minha cabeça achei um absurdo! Sabe quando vou fazer um "outro" favor deste para ele? Senta e espera.






quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Dias


Ola meus queridos(as)

Vários dias na praia para recarregar as baterias... dias preguiçosos, dias ensolarados, dias de paz, dias de brincadeiras, dias de churrascos, dias de mar, dias de cachoeiras, dias de amigos, dias sem TV, dias    de acordar tarde, dias de comer besteira, dias de dormir com o barulho das ondas.... apenas dias.

O I. virou um índio, dá próxima vez que descermos a serra não levo mais nem roupa para ele, dias de andar pelado.... O Caiçara consegui uma folga dupla e passar uns dias, dias de carinho, dias de ser pai, dias de ser churrasqueiro! 

Dias de fazer as pazes com o passado, pois é, lá fui eu e o I. visitar a bruxa evangélica da irmã do Caiçara. Ela foi muito receptiva, fez almoço para o I., conversou bastante (bom, ela continua falando demais da vida dos outros MAS apreendi a não "escutar"), e assim enterramos o passado. Morro de amores por ela? Não, longe disso; é viável duas vezes por ano nos encontrarmos socialmente? Sim, e ponto final; considero encerrado esse capítulo da minha vida.

Dias tristes também, o padrinho do meu filho faleceu alguns meses atrás, essa foi a primeira vez que descemos para praia e não o encontrarmos, passamos na frente da sua casa fechada, sentamos no quiosque e ele não veio tomar uma cerveja conosco nem brincar com o I. na areia, não escutei a sua frase "Orrrrra Meu, esse ano o Parmeira vai ser campeão!!!!!!!!"'.... saudades, muitas saudades deste velho "safado", pescador, talentoso (trabalhava com madeira como ninguém, todos os brinquedos que ele fez para o I. serão muito bem guardados), carismático, birrento, boca suja, amoroso, amigo e amava o meu filho profundamente. Sei que ele estará olhando por ele lá de cima.

Dias de férias!!!!

E para os que estam interessados, o Caiçara continua limpo (só por hoje) e eu continuo não contando os dias.... 



quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Eventos extremos


Ola meus queridos!

Hoje enquanto voltava caminhando para casa, pois é, não dirijo mais, alias meu carro esta parado na garagem do prédio empoeirando há vários meses, e digo que essa minha vida " pedestre" mudou bastante como eu vejo a cidade (e a minha pegada de carbono), presenciei uma cena muito interessante. Era uma criança, 10/12 anos talvez simplesmente explicando para uma senhora que lavava a sua calçada como se a Cantareira estivesse no seu limite máximo de acúmulo de água, a criança questionando o uso de tal água potável, que deveria ser utilizada para um fim mais nobre, sendo desperdiçada lavando a rua....  A senhora no começo não estava com cara de muitos amigos,  disse que a água era dela pois ela que pagava a conta e blablabla... até a criança dizer, não senhora; essa água é de todos nós e tem muita gente sem tomar banho porque a senhora esta lavando a sua calçada! Eita, chulapada! 

Poderia divagar um pouco aqui sobre isso, mas o tema é eventos extremos... e a seca que estamos vivendo na região sudeste é um evento extremo climático. Tempestades mais violentas, secas prolongadas, ondas de calor, gigantes nevascas são exemplos de eventos extremos que acarretam inúmeras conseqüências. Várias delas catastróficas MAS outras vitais para a evolução da sociedade. Os eventos extremos (sejam eles climáticos ou não, pois " outros" eventos extremos acontecem na nossa vida) são uma oportunidade, uma porta que se abre para uma nova forma de viver, se adaptar, mudar...

Nem todos os eventos extremos são previsíveis, poucos alias são, mas eles nos ensinam a não subestimar nossa capacidade de adaptação, colocam nossa criatividade em jogo, nossa inteligência para funcionar achando soluções frente a essas situações adversas. Então, por mais catastróficos que os eventos extremos sejam, sou grata à eles pois estes também fazem parte do processo de evolução  natural de qualquer sistema.